
Ardente como um sonho de verão
A primeira vez que eu tomei aquele cafezinho aconteceu sem que eu percebesse a força da bebida servida com tanto carinho. Primeiro o convite ao café, depois ao peixe frito, ou ordem inversa, não me recordo bem. Diante da simplicidade daquela casa e de sua proprietária, não resisti ao encanto com que tudo aquilo se apresentava a mim, de uma maneira absolutamente despretensiosa. Fiquei apaixonada pelo lugar, por sua gente, por suas histórias. Lembro que uma aventura de domingo, com uns amigos recém-conquistados, originava a paixão que me conduz até hoje.
Alguns falam da água, outros de seus encantos mil, lagoas afora, mata adentro. Eu atribuo esse amor todo ao café. Sim, aquele meio copo de café que me foi servido num certo anoitecer, alguns anos atrás, mudou a minha vida. Forte na medida certa, com um sabor confortante como o de uma boa amizade. Ainda amargo, porque o açúcar era colocado ao gosto da visita, eu preferi colocar uma colherinha de nada, bem pouquinho. E ouvi a dona de casa lembrando que se eu quisesse mais doce não tivesse vergonha.
Na hora não me senti constrangida por nada. A não ser pelo fato de que o motivo que me levara àquela casa houvesse se dispersado por causa do convite ao cafezinho. A doce senhora é até hoje minha amiga. Quão surpresa fiquei ao me descobrir doente, quando já era residente daquele lugar mágico, e precisei levar apenas um quilo de açúcar para ter direito a um lambedor (ou xarope caseiro para expectorar). Em seu quintal, cheio de plantas por ela cultivadas, nascem plantas de nomes variados que somam sete, nove ou doze ervas, necessárias para a tal “mezinha”.
Fiquei boa da tosse e até hoje me valho desse expediente quando preciso limpar os pulmões. Para não abusar de minha boa amiga, tentei fazer em casa. Fácil dizer que não acertei o ponto. Ficou ralo demais, acho que não tive paciência o suficiente. Aliás, referindo-me a essa qualidade daquela senhora é que retomo ao assunto do café. Em uma de minhas visitas ao seu “laboratório”, digo, quintal, eu me deparo com alguns de seus segredos guardados a céu aberto. Uma lata velha é responsável pela torrefação. Uma imensa concha de madeira faz as vezes de pilão.
Ela repete o ritual periodicamente. Abastece sua despensa e a dos filhos. Quando os vizinhos querem, mandam um real ou dois para pagar o mimo. Há muitos anos, perdidos no tempo, o café é “morto no pau” naquela casa. Minha amiga não se contenta em ir ao supermercado ou padaria comprar meio quilo de café torrado e moído fino, como todas as pessoas que eu conheço costumam fazer (e eu inclusive). Dona Biu faz questão de adquirir os grãos, torra-os, com um pouquinho de açúcar, e depois quebra-os no pilão. O trabalho é redobrado, mas o sabor é inigualável.
A primeira vez que eu tomei aquele cafezinho aconteceu sem que eu percebesse a força da bebida servida com tanto carinho. Primeiro o convite ao café, depois ao peixe frito, ou ordem inversa, não me recordo bem. Diante da simplicidade daquela casa e de sua proprietária, não resisti ao encanto com que tudo aquilo se apresentava a mim, de uma maneira absolutamente despretensiosa. Fiquei apaixonada pelo lugar, por sua gente, por suas histórias. Lembro que uma aventura de domingo, com uns amigos recém-conquistados, originava a paixão que me conduz até hoje.
Alguns falam da água, outros de seus encantos mil, lagoas afora, mata adentro. Eu atribuo esse amor todo ao café. Sim, aquele meio copo de café que me foi servido num certo anoitecer, alguns anos atrás, mudou a minha vida. Forte na medida certa, com um sabor confortante como o de uma boa amizade. Ainda amargo, porque o açúcar era colocado ao gosto da visita, eu preferi colocar uma colherinha de nada, bem pouquinho. E ouvi a dona de casa lembrando que se eu quisesse mais doce não tivesse vergonha.
Na hora não me senti constrangida por nada. A não ser pelo fato de que o motivo que me levara àquela casa houvesse se dispersado por causa do convite ao cafezinho. A doce senhora é até hoje minha amiga. Quão surpresa fiquei ao me descobrir doente, quando já era residente daquele lugar mágico, e precisei levar apenas um quilo de açúcar para ter direito a um lambedor (ou xarope caseiro para expectorar). Em seu quintal, cheio de plantas por ela cultivadas, nascem plantas de nomes variados que somam sete, nove ou doze ervas, necessárias para a tal “mezinha”.
Fiquei boa da tosse e até hoje me valho desse expediente quando preciso limpar os pulmões. Para não abusar de minha boa amiga, tentei fazer em casa. Fácil dizer que não acertei o ponto. Ficou ralo demais, acho que não tive paciência o suficiente. Aliás, referindo-me a essa qualidade daquela senhora é que retomo ao assunto do café. Em uma de minhas visitas ao seu “laboratório”, digo, quintal, eu me deparo com alguns de seus segredos guardados a céu aberto. Uma lata velha é responsável pela torrefação. Uma imensa concha de madeira faz as vezes de pilão.
Ela repete o ritual periodicamente. Abastece sua despensa e a dos filhos. Quando os vizinhos querem, mandam um real ou dois para pagar o mimo. Há muitos anos, perdidos no tempo, o café é “morto no pau” naquela casa. Minha amiga não se contenta em ir ao supermercado ou padaria comprar meio quilo de café torrado e moído fino, como todas as pessoas que eu conheço costumam fazer (e eu inclusive). Dona Biu faz questão de adquirir os grãos, torra-os, com um pouquinho de açúcar, e depois quebra-os no pilão. O trabalho é redobrado, mas o sabor é inigualável.
4 comentários:
Que delícia!
Deu saudade de Baía Formosa, a lagoa da Coca-Cola...
E uma vontade imensa de degustar esse café.
Lindo texto!
O convite está sempre aberto. E agora, com as cheias das lagoas, temos uma linda cachoeira. A gente se delicia na água doce olhando para o mar. Pode? Quando vamos?
Textinho temperado e fumegante esse. Deu pra sentir o gosto do café na boca. Adorei a descrição e a comparação com a amizade "confortante". Muito bem escrito Eliade. É o tipo do texto que joga a gente na situação descrita. Achei por uns instantes que a doce mulher fosse a dona Maria... Mas, vi um nome diferente no final. Quero já esse café pra matar minhas saudades!
Beijo, querida!
Não gosto de café, mas é indiscutível que o cheiro é capaz de provocar sensações até em quem já está à beira da morte quanto para quem ainda vai nascer! O texto está tão bem escrito. Eu tomaria desse café!
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