segunda-feira, 20 de julho de 2009

A vida em versos

Foto: Eliade Pimentel
Aos berros, bem típicos da personalidade dele, o poeta irrompe a sala e grita: "tudo o que ela escreve é poesia". João Gualberto é uma figura ímpar, escreve poesia de uma forma visceral, sem devaneios pueris. E quando me vi, aos 22 anos sendo elogiada por aquela figura linda, pensei que meu ofício ora iniciado estava salvo para sempre. Hoje, aos 34, permito-me escrever versos. Os bilhetes não endereçados a ele, anos atrás, foram o pretexto para eu me dar o prazer de acreditar em mim mesma. Não sei se tudo o que escrevo é poesia, mas a vida para quem sabe viver é um poema sem métrica, com rima alegre, daqueles que a gente chora sem perceber que a vida pode ser lida em versos. A foto do pôr do sol da praia mais linda do litoral potiguar, o Pontal de Baía Formosa, é uma síntese de todas as coisas boas que penso acerca de nossa existência.

Tudo o que ela escreve é poesia. Até os bilhetes que encontro na minha soleira. Identifico versos, frases que acabaram de ser feitas, mas já estavam prontas. Que bom, estamos vivos. Lembro do “papai, estamos vivos”, um grito de socorro entoado em coro por um grupo de amigos há mais de uma década. Hoje, passados os anos, diminuímos o volume do nosso apelo e gritamos: “papai, mamãe, ou o que nos restam... queremos ajuda para continuar a crescer. Ainda dá tempo de aprender?”.
O poeta rasga um elogio a uma menina que acabara de virar mulher. Diz que se encanta com a poesia existente no seu modo de dizer “fui embora sem conhecer o interior da casa que te abriga. A espera foi longa e me desnudei no outro lado do muro. Onde está você, perguntava-me, ouvindo apenas o farfalhar das aves. Pensava em tu me vendo assim, em pêlo, como uma Eva arrependida do que fez”. Na verdade, o escrito era apenas a fantasia de uma pessoa que se sentia preterida por uma boa lembrança.
Ora sou o poeta, ora sou a menina, para os dois, a vida pode ser composta em versos. Jamais serei o caixa do supermercado. Ouvir o tilintar das moedas e não levá-las para casa frustra não poder ajudar a si mesmo a resolver os problemas do cotidiano.

Um comentário:

Alma do Beco disse...

Ó eu aqui, visitando.
Legal seu som das estrelas.

Dunga